Victor Dubugras - Arquiteto inovador

De acordo com o professor Nestor Goulart Reis Filho, que escreveu a biografia de Victor Dubugras, (Victor Dubugras. Precursor da Arquitetura Moderna na América Latina. São Paulo: Edusp, 2005) a construção da estação de Mairinque teve importância não apenas para a história da arquitetura, mas também para a carreira do arquiteto, que depois projetaria e construiria outras obras de expressão. Porém, o edifício precursor fora erguido no meio da floresta, em local de difícil acesso, na época conhecido como bairro Canguera, de São Roque. Essa circunstância, na visão do professor, estimulou o arquiteto a usar materiais reaproveitáveis, paredes estruturadas com trilhos descartados do uso original, restos de redes de ferro e pedras da região. Constituído de três corpos principais, o edifício tem o corpo central, de maior altura, com estrutura em abóbada, apoiada em quatro torres, e os dois corpos laterais constituídos por estruturas moduladas, com lâminas de concreto. O edifício fora concebido para suportar os solavancos diários provocados pelas locomotivas e vagões cargueiros, que trafegavam pelo entroncamento.

O texto publicado na Revista Politécnica (1908) dois anos depois da inauguração da estação exaltava o projeto de Dubugras: “ Ainda que seja este o primeiro exemplo de um edifício considerável, inteiramente executado em cimento armado, entre nós, e ainda que a construção tenha sido superiormente planejada e efetuada com a maior perfeição, não reside nisso, a nosso ver, o maior mérito da obra […], mas sim a admirável disposição do seu plano geral, cheio de bom senso e de simplicidade e mais ainda, e sobretudo, a originalidade, a elegância, a sobriedade da sua composição arquitetônica”.

Nas palavras do professor Nestor Goulart, “A relevância do projeto de Victor Dubugras é estabelecida de forma definitiva quando o comparamos com um dos principais marcos da história de toda a arquitetura contemporânea, que é o projeto do arquiteto Tony Garnier para uma Cidade Industrial, que foi publicado em 1903, contemporâneo, portanto ao projeto da Estação de Mairinque”. Tony Garnier (1869-1948), arquiteto e urbanista francês, tornou-se mundialmente conhecido pela crítica ao processo de desenvolvimento das cidades no final do século 19 e início do século 20 e pela busca de novas formas urbanas. Dedicou-se ao projeto de criação de uma nova cidade moderna, chamada de Cidade Industrial, explorando as potencialidades do concreto armado como base de sua obra, além do ferro e do vidro. Esse projeto, jamais executado e considerado radical para a época, anos mais tarde foi considerado por muitos autores como uma das mais significativas propostas da urbanística do século 20, tornando-se fonte de inspiração de arquitetos progressistas como Le Corbusier. Como enfatiza Nestor Goulart, os aspectos inovadores de Garnier consistiam principalmente no uso pretendido do concreto armado como material corrente e na linguagem plástica geometrizada, aspectos presentes no projeto de Victor Dubugras.

Nascido em Sarthe (região Pays de la Loire), na França, em 1868, Victor Jean Baptiste Dubugras ainda criança mudou-se para Buenos Aires, onde iniciou seus trabalhos de arquitetura. Em 1891 veio para São Paulo. No início de sua carreira trabalhou sob a direção de Ramos de Azevedo na Carteira Hipotecária do Banco União. Ingressou em seguida no Departamento de Obras Públicas de São Paulo e começou a lecionar na Escola Politécnica (hoje ligada à USP). A partir de 1897 abriu o próprio escritório de arquitetura. Já na primeira década do século 20, Dubugras era saudado por estudantes de engenharia como o mestre que se afastava corajosamente das “formas banais”, revelando tendências acentuadas para um novo método construtivo, o concreto armado. Em Dubugras os estudantes exaltavam, sobretudo as formas de estrutura real, nas quais “as disposições construtivas e a natureza dos materiais” eram desveladas e postas honestamente em evidência.

Dubugras projetou e construiu incessantemente até a sua morte, em 1933, em Teresópolis/RJ. Seus projetos contemplaram residências, modestas e luxuosas (como o palacete de Flávio Uchoa, a Vila Uchoa, que se transformou depois no colégio Des Oiseaux, até ser demolida em meados do século 20), igrejas (Ribeirão Preto), palácios (Legislativo de Montevidéu), sedes de prefeituras (Santos/SP e Niterói/RJ) e monumentos comemorativos. Muitas de suas obras foram demolidas, porém sobrevivem algumas franqueadas ao público como o Largo da Memória, no centro de São Paulo, os monumentos e pousos do Caminho do Mar (Estrada Velha Paulo – Santos) e a Estação ferroviária de Mairinque. O acervo de Dubugras foi doado pela família à Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Jonas Soares de Souza