Mairinque: a formação do território

O mapa geomorfológico do Estado de São Paulo (IPT, 1981) mostra que o município de Mairinque se situa na província do Planalto Atlântico, dentro da zona denominada Planalto de Ibiúna. A topografia da região é bastante acidentada. O relevo montanhoso do Planalto Atlântico se estende por centenas de quilômetros quadrados, encerrando seus limites na Depressão Periférica. A “Serrania de São Roque”, uma das subdivisões do planalto, é constituída por um cordão montanhoso, no qual se destaca seu principal acidente – a Serra do Japi, ao Norte, cuja riqueza hídrica mereceu a denominação de “castelo de águas” por parte de naturalistas europeus.

Assim, as formações predominantes da região são serras alongadas e morros com serras restritas, morrotes alongados e espigões, planícies aluviais, terrenos planos juntos aos principais cursos d’água. É área do “Domínio dos Mares de Morros”, definido pelo professor e geógrafo Aziz Ab’Saber (1924-2012). Pelos seus vales comunicantes, entravam e saiam caminhos indígenas e rotas de circulação terrestre básica, exploradas desde os tempos coloniais pelos europeus adventícios. Pelos seus vales passariam trilhas conectadas a um dos ramos do famoso caminho do Peabiru (ou Trilha dos Tupiniquins), caminho pré-colonial que ligaria os Andes ao Oceano Atlântico.

Sabe-se que a região foi percorrida pelo sertanista Clemente Alvares (c.1569-c.1641), natural de São Paulo, homem empenhado e dedicado aos metais e parceiro de Afonso Sardinha, o moço, durante suas empreitadas de pesquisa de minas de metais preciosos. Em 1606 Clemente teria comparecido à Câmara de São Paulo para registrar algumas minas que tinha descoberto na região do Voturuna e, desse modo, não perder os direitos sobre elas, observando o que determinava o novo Regimento das Minas de São Paulo. Entretanto, as notícias destas riquezas minerais são sempre obscuras e inconclusivas. Por outro lado, os dados do registro no livro de Atas da Câmara de São Paulo permitiram ao historiador Mario Abdo Neme (1912-1973) estabelecer um traçado para o “caminho geral”, que partia de São Paulo, seguia em direção à povoação de Santana de Parnaíba, atravessava a área entre os morros do Voturuna e do Apotribu, passaria por Itu e chegaria a Araritaguaba (hoje Porto Feliz), às margens do rio Tietê. Esse trajeto seria idêntico ao que aparecerá mais tarde no Mapa Corográfico da Capitania de São Paulo elaborado em 1766, e de um modo geral, ao traçado da estrada que ligará Itu a São Paulo no século 19.

Nos séculos 17 e 18 a região, onde mais tarde surgiria o município de Mairinque, integrava o imenso território do termo (município) da Vila de Santana de Parnaíba, do qual se desmembrariam Itu (1657) e São Roque (1832). O território ainda era habitado por nações indígenas dos grupos linguísticos tupi e macro-jê, escravizadas ou expulsas pelos sertanistas e bandeirantes. Entre eles, o sertanista André Fernandes (c.1578-c.1648), que em 1619 obteve uma sesmaria que ia de Parnaíba até Araçariguama. Mais tarde, o capitão-mor Guilherme Pompeu de Almeida (1601-1691) estabeleceu-se com imensa fazenda em Voturuna e ali edificou a capela de Nossa Senhora da Conceição de “Ybyturuna” (Voturuna). Seu filho, do mesmo nome, o célebre creso de Parnaíba (referência ao rei da Lídia, poderoso e rico), ordenou-se padre e possuiu fazenda pouco mais adiante de Araçariguama, certamente ligada à do pai, que depois herdaria formando gigantesca propriedade.

Padre Pompeu (1656-1713), nascido na Vila de Santana de Parnaíba, estudou filosofia e teologia com os jesuítas em Salvador, Bahia, e obteve o grau de doutor em teologia por bula pontifícia. Ele atuou como verdadeiro financiador da economia do sertão, capitaneando a negociata da prata que envolvia colonos portugueses e índios tupis, aventureiros espanhóis e índios guaranis. Em pouco tempo amealhou grande extensão de terras, construiu uma luxuosa propriedade com capela e acomodações para visitantes. Ali recebia os negociantes, em sua maioria parentes de sangue ou de afinidade, e, valendo-se da extensa rede de caminhos que

se entroncavam na região, trocou ferro por prata, prata por ouro, e trouxe muares e gado de Curitiba para vender aos mineradores de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Em parte das terras que um dia foram do creso de Parnaíba surgiria o município de Mairinque, cujo território se desmembrou do município de São Roque em 1959.

Jonas Soares de Souza