A celebrada estação ferroviária de Mairinque

 Para quem se aproxima do centro de Mairinque, vindo de qualquer lado, a estação ferroviária destaca-se à distância. Inaugurada em 1906 entre duas linhas férreas (abertas do século 19 pelas antigas Companhias de Estradas de Ferro Sorocabana e Ituana), a estação-ilha tem acessos e passagens por túneis que separam os carros dos pedestres, “sensibilidade rara mesmo em nossos dias”. As passagens sob o leito ferroviário também servem como elo entre as duas partes da cidade, fragmentada pela presença da ferrovia. Projetada e executada pelo arquiteto e professor da Escola Politécnica de São Paulo Victor Dubugras (1868 – 1933), desde a sua construção a estação de Mairinque é festejada como exemplo de modernidade e racionalismo, “obra absolutamente notável, quer considerada sob o ponto de vista construtivo, quer encarada pelo seu aspecto arquitetural”.

O texto intitulado “Uma estação modelo”, assinado pelas iniciais J.P. e publicado em 1908 na Revista Politécnica, já trazia um rasgado elogio ao projeto: “Como construção, oferece o edifício o exemplo da mais judiciosa aplicação do cimento armado, que, neste caso particular, foi chamado a resolver importante dificuldade de fundação, permitindo a constituição de toda a obra em um bloco único, indeformável, capaz de distribuir o seu peso atenuado sobre o pior terreno, de suportar todas as vibrações provenientes do tráfego intenso que cinge a gare e de desafiar indefinidamente a degradação pelo tempo. A construção […] é de uma grande simplicidade de recursos, baseando-se no emprego de trilhos usados na armadura ou esqueleto resistente e do métal déployé nos panos de vedo, coberta, etc., sendo tudo betonado pelos processos correntes”.

Decorridas sete décadas de uso intenso, o edifício sofreu danos variados e passou a exigir intervenções de restauro visando a sua preservação. Em março de 1979, o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Nestor Goulart Reis Filho coordenou a elaboração de um relatório técnico para as obras de recuperação da estação de Mairinque, apresentado à sua então proprietária, a FEPASA – Ferrovia Paulista S/A, pela PLANART S/C – Planejamento e Arquitetura Ltda. Nas palavras do professor Nestor Goulart, “trata-se de um dos mais importantes monumentos históricos ferroviários do Brasil, e de um dos mais antigos edifícios em todo o mundo a ser construído com uma linguagem plástica moderna, em concreto armado”. O aspecto pioneiro da estação de Mairinque, enquanto inovação arquitetônica, diz o Nestor Goulart, “é ainda maior porque nos faz recuar de mais de dois decênios o início da Arquitetura Moderna Brasileira, cujo marco de referência tem sido considerado, em geral, como sendo a residência de Warchavchik, de 1929”.

Por sua vez, o arquiteto e historiador, também professor da FAU-USP, Carlos A. Cerqueira Lemos, em texto sobre arquitetura contemporânea publicado em 1983, considerou a estação de Mairinque um trabalho pioneiro na arquitetura moderna brasileira, particularmente “quando vemos pela primeira vez o concreto armado empregado dentro de sua potencialidade plástica nas marquises atirantadas, nos torrões, nos vãos, nos espaços abrigados, segundo cálculos estruturais corretos e atendendo a um programa ferroviário que, se não era novo, era ligado a uma recente vida na região até praticamente aqueles dias vinculada ao mundo de transporte pelas tropas e ao comércio de muares na célebre feira de Sorocaba ali próxima”.

Em reconhecimento à sua importância, o valioso patrimônio arquitetônico foi tombado em 1986 pelo órgão de preservação estadual, CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo), e em 2002 pelo federal IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Salva da sanha imobiliária, a estação projetada e construída por Victor Dubugras permanece inteira e hoje abriga um pequeno museu. O prédio, parcialmente escondido por locomotivas e vagões, continua reclamando cuidados e intervenções de restauro para sua preservação.

Jonas Soares de Souza